Segunda-feira, 6 de Setembro de 2010    
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  Notícia >>  (26/10/2009)

Mercadoria encalhada

Zé Terrível desde que se instalou na Vila dos Fugidos prestava serviços pra comunidade como farmacêutico. Naqueles tempos um farmacêutico fazia quase tudo: aplicava injeções, media pressão arterial, arrancava bernes, bicho de pé, rasgava carnegão inflamado, fazia pequenas cirurgias etc...
Hoje, já se aposentando do ofício, seu Zé tem muitas histórias para contar.
Seu Izidoro era um sitiante das bandas da Farinha Seca e tinha sérios problemas de gases e intestino preso. Numa ocasião, ele ficou uns treze dias sem “despachar a mercadoria” e aquilo foi lhe causando um mal estar dos diabos. Numa prosa com seu compadre, desabafou:
Cumpadi Nerso, eu ando cum dilurimento nas tripas home, qui tá de lascá o cano! O que o cumpadi me aconseia?
Ara, Izidoro, ocê tem que percurá um farmacelto na vila pá mor di dá jeito nessa quisila.
Mai cumpadi, cume qui eu vô chegá no dotô e ispricá o pobrema?
Óia, percura o seu Zé Terrive que ele há di arresorvê.
Cumpadi, ocê qui é home mai iscrarecido, num vem mais eu?
Tá bão, Zidoro, eu tô memo percisano de fazê umas comprinhas...
Montaram na charrete e foram para a Vila. Chegando lá amarraram o cavalo numa árvore na praça e foram para a farmácia do Zé Terrível.
Tarde, seu Zé – adiantou Nelson – Eu troxe o Zidoro prô Sinhô vê o que si arresorve, o cumpadi tá cumas mercadorias encaiadas, si é qui mi intende.
Muito boas tardes, seu Nelson, seu Izidoro. É, realmente o senhor está com uma aparência horrível. Vamos ver isso aí. Há quanto tempo o Senhor não defeca?
Ahh???
Defecá é o memo que sortá o barro, Zidoro – cochichou Nelson no ouvido do compadre.
Ah! Uns treze dias mais ou menos.
Santo Deus! Exclamou o farmacêutico. Seu Izidoro, conheço casos de morte com bem menos que isto.
Izidoro perdeu a cor e deu uma fraquejada.
Num fala isso, seu Zé, nem di brincadera. O Sinhô num tem argum remédio que resorva o pobrema aqui na sua butica?
Bem, vejamos. Tenho aqui uma caixa com quatro supositórios e o senhor deve iniciar o tratamento ainda hoje, sem falta, via retal.
Seu Izidoro pegou a caixa, pagou e agradeceu Seu Zé.
Os dois já estavam a uma quadra da farmácia quando Izidoro virou para o compadre:
Cumpadi Nerso, ocê qui é home mai iscrarecido, sabe mi dizê o que é via retar?
Óia, Zidoro, sabê assim cum certeza não, mai discunfio.. Vamo fazê o siguinte, a gente vorta lá e ocê diz prô Seu Zé que sisqueceu di como usá o remédio.
Isso mermo cumpadi, vambora.
Na farmácia Zé Terrível estranhou o retorno dos homens:
E então senhores, algum problema?
Sabiqui é seu, Zé, nois fumo prosiano, prosiano e sisquecemos o que o Sinhô falô a respeito di como usá o remédio.
Via anal seu Izidoro, via anal!
Brigado seu Zé, sabe, as veis eu si confundo e aí...
Me confundo, seu Izidoro!
Ah! O Sinhô tumem si confundi?
Deixa pra lá, homem, passar bem.
E lá se foram os dois, subiram na charrete e de repente seu Izidoro ficou pensativo.
Cumpadi Nerso, ocê qui é home mai iscrarecido, sabe mi dizê o que é via retar?
Óia, Zidoro, sabê assim cum certeza não, mai discunfio. Ocê qué vortá lá pá mor di preguntá prô dotô?
Eu não cumpadi, do jeito qui ele é terrive, vai qui ele manda eu enfiá esse troço no fiofó. Vambora sô!
No caminho de volta, na curva da matinha, seu Izidoro apiou depressa e correu mato adentro. Aninhou-se perto de uma moita de murici, agarrou-se a um galho e despachou a mercadoria.
Arresorvido o pobrema.
 


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