Segunda-feira, 6 de Setembro de 2010    
Capa
Adolfo
Catigua
Causos da Nhá Colaca
Cedral
Cultura popular
Especial
Ipigua
Mendonca
Nipoa
Opiniao
Poloni
Tabapua

O Portal

Telefones úteis

Fale conosco

Expediente

Prefeitura de Rio Preto
Multas
IPVA e Licenciamento
Secretaria de Segurança

 

 

 

  Notícia >>  (26/10/2009)

Matutando em Saude

Xavier Jr.
Aqueles que vão visitar Dona Herondina vão ter de passar por muitas "cheiradas" antes de chegar a cumprimentar a dona da casa. Muitos nem se atrevem a passar da porteira, que fica a quase 60 metros do alpendre da entrada da casa. São exatamente seis cachorros, quatro pequenos paqueiros e dois mestiços de labrador, e ainda mais quatro gatos, além do papagaio "Kalô", que lá convivem com a octagenária senhora, que os trata com carinho de mãe.
Herondina, viúva há 30 anos, tivera apenas uma filha, Henriqueta, que engravidara ainda solteira e que há tempos fora embora com um namorado, deixando com ela a pequena Heleonora, uma linda menina surda de nascença. Após o diagnóstico ainda na primeira infância, com ajuda da comunidade, Heleonora passou a usar aparelhos para surdez e com isso conseguiu seguir o aprendizado escolar. Cursando a sexta série, pela sua beleza e candura é a aluna mais popular da escola.
Para muitos da vizinhança, foi a convivência com os animais que fez com que Henriqueta adquirisse rubéola durante a gravidez e a conseqüente surdez de Heleonora, mal que "poderia ser pior" segundo a avó, que ouvira dizer sobre o falatório que corria na vila quando dos primeiros anos de vida da neta.
As pessoas em geral não têm grande conhecimento sobre quais os reais riscos que o convívio com os animais domésticos pode apresentar, e muito menos quais as moléstias que eles são capazes de transmitir aos humanos. No caso de Henriqueta, a rubéola motivo da surdez de Heleonora é causada por vírus transmitido apenas entre humanos.
Entre as muitas doenças transmitidas por animais por ordem de menor gravidade citamos: a sarna (Sarna sarcoptica) e as micoses ("impinges"), que podem ser transmitidas por cão, gato, coelho e cavalo, através do contato direto com o animal doente; o bicho geográfico ("Ancylostoma"), transmitida pelo contato com areia contaminada com fezes de cães, e a teníase, a popular solitária ("Dipylidium"), também transmitida pelo contato com fezes de cães e gatos.
Outras que causam maiores danos gerais são: a brucelose, transmitida por contato com secreções vaginais e fetos ou restos de parto de cadelas; a leptospirose, que atinge os cães através da urina contaminada dos ratos sobre a alimentação dos mesmos e a criptococose, transmitida por simples aspiração do pó das fezes de cão, gato, ovinos, primatas e principalmente de aves (pombos). Também importante citar é a toxoplasmose, causada por um parasita intestinal, que se transmite ao homem pelo contato com fezes de felinos, mas também pela ingestão de carne crua ou leite cru de animais (bovinos, ovinos) doentes.
A mais perigosa pela alta mortalidade, e felizmente atualmente a mais controlada, é a raiva, causada por vírus presente na saliva de mamíferos contaminados (inclusive o homem). O uso da vacinação animal de rotina tem restringido a transmissão aos morcegos. Outra letal, porém ainda não detectada em nosso meio, é a gripe aviária, que pode atingir os gatos por eventual caça de aves contaminadas.
Contudo há que salientar que animais domésticos saudáveis não transmitem doenças, justamente por não estarem doentes. Daí que as medidas para manter os animais saudáveis como boa alimentação (evitando que eles procurem alimento através da caça), higienização do ambiente, com limpeza freqüente das excreções, evitar a umidade excessiva nos locais de repouso dos animais e eventualmente banho, nas épocas de verão, são de suma importância.
Estas medidas, Herondina já fazia por intuição tratando os bichinhos como filhos de verdade. Mas a principal razão de seu grande amor pelos animais estava na alegria que eles lhe traziam, traduzida numa festa a cada simples gesto de carinho, ou no momento da alimentação de todos os dias. Nas poucas vezes em que um dos seus animais parecia doente, logo ela procurava isolar e tratar o querido "paciente".
Numa destas ocasiões, "Carbono", um dos pequenos paqueiros amanheceu com os olhos inchados e vermelhos, trombando na porta e em objetos: estava cego. Procurando ajuda, Herondina chegou a levá-lo ao Hospital Veterinário da comarca, onde após exames foi diagnosticada intoxicação por veneno de rato, e graças a um tratamento rápido, o cão logo se recuperou e voltou ao normal.
Mas o curioso neste episódio é que ainda naquela semana Herondina havia visitado uma grande amiga benzedeira que lhe havia dito que por inveja haviam feito um "trabalho" para que ela ficasse cega. Ao que parece o pequeno "Carbono" serviu de anteparo ao mal invocado contra a sua dona. Se assim for, a blindagem de pára-raios de Herondina é das mais eficientes.
Além de tudo isto, outro motivo, maior ainda, justifica o carinho de Herondina pelos animais. Logo após a partida da filha, ao se ver desamparada com a pequena e surda Heleonora, ela cedo notou que a menina jamais ficaria triste visto que logo ela aprendera a "conversar" com os cães e gatos da casa, o que evitou que a tristeza pela sua condição e pelo abandono da mãe, a deixasse deprimida e mais inválida. Muito pelo contrário, a convivência com os animais foi fator fundamental para ela superar a sua deficiência.
 


Powered by
WEBRIOPRETO